A crônica do antecipatório

on sexta-feira, 21 de maio de 2010


Tem gente que "tarda, mas não falha". Eu e uma multidão deixamos para a última hora a prevenção contra a influenza, que para a turma dos trintões acaba hoje. Sempre que eu olho para uma fila gigante, eu não penso duas vezes, me antecipo em cair fora. Mas é humanamente possível entreter-se em um lugar apertado com um impaciente atrás do outro.                                                                                                                                                            
Logo de cara, eu fui expulsa por um auxiliar de enfermagem. Ele antecipou-se em dizer que a campanha era só para quem tem de 30 a 39 anos.  Eu não estava usando uma camiseta da Hello Kitty ou adereços coloridos nos cabelos. Estava no meu sóbrio terninho preto, que deixava transparecer uma blusinha pink, mas discreta. Rindo muito, não falei nada, apenas mostrei o meu documento que acusa os meus 38 anos de idade e assim fui orientada a ficar, inclusive, não deixar de me proteger porque essa gripe mata mesmo.

Há tanto tempo eu fugia das fileiras, pois, nem me lembrava da diversão garantida que é assistir gente tentando desesperadamente provar que sua urgência é ainda mais urgente que a dos outros apressados. A desenfreada busca por atendimento antecipado é sempre um implora daqui, argumenta de lá e, no final das contas, quando o cidadão resolve ingressar na fila ela já está bem maior, o que implica em ficar ainda mais para trás na sua importante das mais importantes vidas turbulentas. 

Eu estava atrasada para um compromisso na prefeitura. Dirigi-me até a organizadora desse longo e tenebroso alinhamento, para não dizer trincheira, e perguntei se ela sabia qual o posto mais próximo do paço municipal para eu receber a minha dose. Pensei em pedir a minha com vodca, mas fui direto ao ponto, só queria um endereço para decidir se aguardaria ali ou pegaria a condução para o centro da cidade, tentando ganhar tempo fazendo tudo num lugar só.

Mas a servidora perguntou-me se eu trabalhava na prefeitura e respondi que sim. Ela passou a me tratar como colega e percebi que, dependendo da minha função, eu seria conduzida ao primeiro lugar da fila, passando à frente de toda aquela gente da agenda lotada. Insisti no endereço e ela em especular se eu era alguém ou “maria ninguém”. 

Eu não disse o meu cargo, limitei-me a dizer o meu local de trabalho, porém, quando notei que receberia tratamento especial por trabalhar num lugar, digamos, muito relevante, eu não hesitei em tentar voltar rapidinho para a tamanha fila. O hilário é que, mal sabe a colega, estou justamente tentando uma transferência para um setor mais pacato e uma de minhas preferências é exatamente o posto que ela trabalha. Certamente, ela me acharia uma louca se eu contasse isso.

Antes que ela tivesse a oportunidade de me passar na frente, talvez até estendendo um tapete vermelho, uma senhora de aparência bastante distinta aproximou-se e, sem mais nem menos, antecipou-se em exigir que a filha fosse atendida. "Bateu boca" com a funcionária enquanto a jovem de olhar perdido ficou estática. Toda vez que eu tentava sair à francesa, elas me puxavam pelo braço para que eu arbitrasse o duelo. 

O problema principal, sussurrado pela mãe da moça, era ela ser autista, por isso, merecedora da vacina. E a questão intransponível gritada pela servidora pública da unidade de saúde era que a vacinação não estava destinada  aos autistas, mas a quem estivesse “dentro do calendário”, o que, teoricamente, excluiria aquela pessoa. Embaraçoso, pois, a mãe da jovem já chegou ao lugar na defensiva e a servidora poderia ter se antecipado em fazer uma perguntinha básica: Qual a idade, não da autista, mas da mulher que estava ali para ser vacinada? Com 33 anos de idade, a filha da, ali naquele contexto, senhora rebelde sem causa pôde entrar na fila e receber a proteção contra a influenza.

Ao encerrar minhas atividades apaziguadoras, eu retornei ao meu lugar na fila, dispensando quaisquer magnanimidades da coleguinha seletiva. Em minha devida posição, conheci Giovana, uma calma menininha de uns 6 anos que não parava de rir um só instante. Obviamente, ela não estava nem aí para filas, injeções, pressas, antecipações de acontecimentos e preconceitos bilaterais. Atrás de mim, um garoto de uns 10 anos estava agarrado à mãe com todas as suas forças e chorando sem parar. Excessivamente amedrontado! Imaginei o quanto ele daria trabalho para tomar essa tal de vacina, que não era de gotinha. 

A fila foi andando, eu mudei de posição, fiquei de lado. Ora eu ria com Giovana , ora eu consolava o pobre menino. Chegando a nossa vez, Giovana mal olhou para a seringa e abriu o berreiro, contrariando a minha previsão de menina tranquila para o que der e vier. Levei a minha agulhada e aguardei o garoto para me despedir. Primeiro ele arregalou os olhos para mim. Eu sorri pra ele. A enfermeira aplicou a injeção e ele começou a gargalhar sem parar, opondo-se a minha adiantada certeza de que ele sofreria até se livrar daquilo. Eu devia ter antecipado a minha ida ao posto de vacinação, entretanto, não poderia perder essa fila por nada.

11 comentários:

Sérgio disse...

Que aventura!
Mas esse "jeitinho brasileiro", tratado como "cordialidade" por Sérgio Buarque de Holanda, é um dos grandes problemas culturais que enfrentamos. Imagino à quantas pessoas a tal enfermeira estendeu o tapete vermelho, contribuindo para a aglomeração da fila.
Parabéns pela atitude.

Um forte abraço!

Principe Encantado disse...

Gostei amiga de sua crônica, muito boa mesmo.
Abraços forte

Cecília Avenca disse...

Um verdadeiro "Duelo de Titâs" minha querida,é um querendo se mostrar mais "necessitado da bendita vacina" do que o outro!!!!!Estou trabalhando diariamente na Campanha conta a Gripe H1n1 e tenho visto de tudo,principalmente alguns espertalhões querendo ter mais direito antecipado que os demais.
Bjos

Leila disse...

Oi Luciana,

Também me distraio em fila conversando.No final somos todos companheiros. A última fila que peguei me deu fome. Eu comprei um bolo inteiro e dividi com quem estava na fila...kkkkkk

Nos EUA também tem muita fila, de banco, supermercado e principalmente no departamento de imigração...rs

bjs

Senhor da Vida disse...

E assim e a vida nao so em epoca de vacina, mas onde tem fila, temos esses fatos muito bem relatados por voce, Brasil né.Tem drama e comedia tudo junto e misturado como Cd.jejejej!

Lu Vaz disse...

Olá, meu caro Senhor da Vida! Vc tem total razão, meu amigo! Drama e comédia tudo junto, nessa nossa vida tragicômica mesmo! Obrigada por ler e comentar. Um super beijo da Lu pra vc.

Jackie Freitas disse...

Oi Lú!
Muito bom esse seu post! Tenho problemas com filas, principalmente com pessoas que não a respeitam e acham que são mais importantes do que os outros! Dependendo do caso, brigo por meus direitos mesmo!
Beijo grande,
Jackie

Herval Candido disse...

Lu, querida

Sua crônica revela uma praga nacional:a falta de educação e cidadania do povo. O meu direito termina quando começa o do outro. Simples assim! Sua atitude e não querer privilégios revela educação cívica. Quando eu era adolescente, se ensinava Educação Moral e Cívica. Era imposição da época da ditadura, mas teve o mérito de se formar cidadãos que conheciam o símbolos nacionais, cantavam o hino de pé e, com certeza, respeitavam as filas muito mais que hoje em dia.

Beijos mil!

Herval

Carlos Roberto de Oliveira disse...

Seu blog, que eu não conhecia (não sabia o que estava perdendo!) é muito bonito e de extremo bom gosto.

Sua postagem é ótima. Fila é coisa que ninguém merece, mas vivemos no país das filhas, não há como fugir!

Estou seguindo seu blog!

CCMaia disse...

Lu, escrever é pura diversão, não? O olhar do cotidiano sempre dá boas crônicas.
Fila é isso mesmo. Eu evito ao máximo. Mas tem hora q é inevitável e lá vamos nós. Nem sempre tem gente disposta a trocar umas palavras, mas qdo tem, é bem vindo, claro se n ficar naquela de papo de elevador "Calor não?", nessa hora me apresso a pegar a "Seleções" da bolsa. Já confusão me afugenta. N tenho jeito pra bate boca, nem jurado. Agora qdo minha mãe tá junto, aproveito 1 pouco. Filinha especial. Q maravilha!

Zergui disse...

Olá Luciana. Eu vi seu comentário lá no blog da Letícia Maria (20 maneiras de irritar...)

Desculpe a intromissão, mas como sou do ramo da Eletricidade, aconselho que chame um profissional habilitado para consertar as conexões (emendas) da fiação do chuveiro.

O cheiro de queimado, fumaça e o derretimento da isolação é característico de mau contato (emenda mal apertada, ou, se for com conector, os parafusos estão frouxos ou com pouca área de contato - só um pedacinho de fio dentro do conector).

Esse problema irá se agravar a tal ponto que a fiação do chuveiro e da própria alimentação (fios que chegam até o chuveiro) irá romper-se, podendo fundir-se e queimar a pele caso caia sobre uma pessoa (cobre derretido).

Outro detalhe, isso é proibido mas, se o chuveiro estiver sendo ligado através de plugue em uma tomada, isso deve ser removido, pois o risco aumenta ainda mais, devido à capacidade inferior da tomada e do plugue, comparados ao consumo do chuveiro.

Mais um cuidado deve ser tomado quanto à bitola da fiação que chega até o chuveiro relacionando-se com sua potência. Se for chuveiro de alta potência (em torno de 7200 Watts), a fiação deve ser de, no mínimo, 6 mm² em 220 V ou 10 mm² em 110 Volts.

Para finalizar, se tiver algo de fácil combustão como cortinas e parede de madeira, próximos a essa fiação, há sério risco de incêndio.

Desculpem colocar esse tipo de informação aqui, mas me senti na obrigação de alertar.

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